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Quando a solidão fala: um olhar da Psicologia analítica sobre a geração Z | Parte 2

Parte 2

Foto: Magnific

No artigo anterior, refletimos sobre o paradoxo vivido pela Geração Z: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão expostos à experiência da solidão. Mas seria essa vivência apenas consequência das mudanças sociais e tecnológicas? 

A Psicologia Analítica, desenvolvida por Carl Gustav Jung, convida-nos a ampliar esse olhar. Para Jung (2015), o desenvolvimento humano não consiste apenas em adaptar-se às exigências do mundo, mas em integrar, ao longo da vida, conteúdos conscientes e inconscientes em um processo chamado individuação. Nessa perspectiva, a solidão pode revelar não apenas um sofrimento, mas também um convite ao encontro consigo mesmo. 

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No percurso da individuação, o indivíduo é chamado a estabelecer uma relação mais autêntica consigo mesmo e com o outro, reconhecendo que os conflitos e sofrimentos psíquicos também possuem uma dimensão simbólica (Kast, 2026). Sob essa perspectiva, a experiência da solidão pode ser compreendida não apenas como um fenômeno social, mas também como uma expressão da dinâmica da psique e sua busca por sentido. 

Um dos conceitos centrais da teoria junguiana é o de persona, compreendida como o conjunto de papéis sociais que desempenhamos e a imagem que apresentamos ao mundo (Jung, 2015).

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Na cultura digital, essa dinâmica ganha novos contornos: perfis, curtidas e seguidores podem favorecer uma busca constante por reconhecimento.

Quando a identidade passa a depender excessivamente dessa imagem, corre-se o risco de perder contato com aspectos mais profundos da personalidade, favorecendo sentimentos de vazio e inadequação (Kast, 2025). 

Ao mesmo tempo, Jung (2014) descreve a sombra como o conjunto de características e emoções que tendemos a rejeitar em nós mesmos. Em uma cultura que valoriza desempenho, sucesso e felicidade permanentes, vulnerabilidade, medo e fracasso frequentemente permanecem ocultos.

Paradoxalmente, quanto menos reconhecemos essas experiências, maior pode ser a sensação de isolamento, como se apenas nós enfrentássemos tais conflitos. 

Entretanto, a Psicologia Analítica distingue o isolamento que empobrece a vida psíquica da solitude, entendida como um espaço fecundo de interioridade.

É nesse recolhimento que o indivíduo pode reorganizar sua vida, reconhecer suas fragilidades e caminhar em direção ao Self, centro organizador da personalidade (Jung, 2015). 

Nesse processo, a função transcendente torna-se especialmente significativa. Segundo Jung (2013), ela possibilita integrar tensões aparentemente opostas, como o desejo de pertencer e a necessidade de ser autêntico.

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Assim, a superação da solidão não depende apenas de ampliar conexões, mas de cultivar uma relação mais consciente consigo mesmo, capaz de sustentar vínculos verdadeiros com os outros. 

Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo: aprender que a conexão mais importante é aquela que nos permite encontrar sentido em nossa própria história para, então, compartilhar a vida de maneira mais livre, profunda e humana.

 

Parte 1

 

Isabela Maria Corrêa Condé (CRP 06-165586). É mestra em Psicologia Clínica pela Universidade Federal do Paraná. Especialista em Psicologia Analítica. Atua como psicóloga clínica remota e presencialmente na cidade de São Paulo, onde fundou o Religar Psicologia, projeto voltado à promoção de saúde mental para a vida religiosa e presbiteral. Contato: @isabelamaria.psi (Instagram) e [email protected] (e-mail). 

Referências

JUNG, C. G. A natureza da psique. Obras Completas, v. 8/2. Petrópolis: Vozes, 2013. 
JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas, v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2014. 
JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Obras Completas, v. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2015.
 KAST, V. Tornar-se um consigo mesmo. Petrópolis: Vozes, 2025. KASTO, V. O que realmente importa é a vida vivida. Petrópolis, RJ: Vozes, 2026.

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