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Quando foi que você deixou de escolher ser você?

Foto: Magnific

Numa sessão de psicoterapia hoje, trabalhei muito com um paciente sobre como nossos desejos e posicionamentos mudam ao longo da vida.

Aquilo que queremos aos vinte anos será dificilmente o mesmo aos quarenta. Pessoas, projetos, sonhos e prioridades se transformam. Experimentamos caminhos, abandonamos alguns e construímos outros. Mas existe algo curioso nesse processo.

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Embora muita coisa mude, parece existir algo singular em cada um de nós. Uma combinação única de características, interesses e formas de enxergar o mundo que nos torna diferentes de qualquer outra pessoa.

Mas se cada ser humano é único, por que tantas vezes passamos a vida tentando ser iguais? A psicologia nos ajuda a entender essa questão.

Nenhum bebê nasce sabendo quem é. Nos primeiros momentos de vida, precisamos do olhar de alguém para nos constituirmos como sujeitos. É por meio do cuidado, do reconhecimento e da forma como somos recebidos que começamos a construir uma imagem de nós mesmos.

Quando um bebê é visto, acolhido e reconhecido, ele vai formando a percepção de que existe como indivíduo separado do outro. Em outras palavras, nos tornamos quem somos na relação com o outro.

Talvez por isso o pertencimento seja uma necessidade tão fundamental. Precisamos dos outros para nos constituir, sobreviver e existir socialmente.
O problema começa quando confundimos pertencimento com semelhança.

Isso fica particularmente evidente na adolescência, quando pertencer ao grupo frequentemente parece uma necessidade vital.

Fazer parte é necessário. A exclusão dói. Dói de verdade. Nosso cérebro ativa regiões semelhantes quando experimentamos dor física ou rejeição social. E por isso fazemos tanto esforço para evitar ficar de fora.

O que nem sempre percebemos é que, aos poucos, podemos começar a trocar autenticidade por aceitação. Deixamos de perguntar o que realmente gostamos, pensamos ou desejamos. Passamos a perguntar o que é esperado, aprovado e valorizado.

Foto: Magnific

Quanto mais tentamos ser iguais para pertencer, mais nos afastamos daquilo que nos torna únicos. Vou além: às vezes nem sabemos o que nos torna únicos. Durante minha trajetória corporativa, ouvi diversas vezes que precisava ser mais parecida com algumas pessoas para crescer profissionalmente. Precisava desenvolver características que pareciam representar o modelo ideal de sucesso.

Por algum tempo, acreditei que desenvolvimento significava tornar-me alguém diferente de quem eu era. Hoje entendo que existe uma diferença importante entre aprender e copiar. Aprender amplia nossas possibilidades.

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Copiar, por si só, nos afasta de nós mesmos. Com o tempo, percebi que meu crescimento não viria de reproduzir a forma de ser de outras pessoas, mas de desenvolver a melhor versão das características que já existiam em mim. Foi preciso coragem para confiar na minha maneira de escutar, construir relações, compreender pessoas e enxergar contextos.

Também foi preciso reconhecer algo difícil: talvez alguns ambientes nunca valorizassem aquilo que eu tinha de melhor para oferecer. Nem sempre o problema está em quem somos. Às vezes, estamos apenas tentando florescer em um terreno que favorece outro tipo de planta.

Vejo algo parecido acontecer com frequência na clínica. Pessoas que construíram vidas admiradas, mas carregam uma sensação silenciosa de desconexão. Como se estivessem vivendo uma vida que faz sentido para todo mundo, menos para elas mesmas.

Talvez porque, em algum momento, aprenderam que ser aceito era mais seguro do que ser autêntico. Mas autenticidade não significa viver sem influência dos outros.

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Todos usamos máscaras. Elas fazem parte da vida social e nos ajudam a transitar por diferentes contextos e relações. O risco surge quando a adaptação se torna tão intensa que perdemos contato com quem existe por trás delas.

Significa continuar ouvindo a própria voz em meio ao barulho das expectativas. É pertencer sem desaparecer. Talvez o aprendizado esteja em parar de perguntar como ser mais parecido com os outros e começar a perguntar onde podemos ser mais nós mesmos.

Quando recebo um convite para escrever sobre autenticidade, percebo que minhas escolhas foram mais em direção a quem sou.

Que escolhas você tem feito?


Virginia França é psicóloga, orientadora de carreira e consultora em saúde mental. Atua apoiando pessoas em momentos de transição, tomada de decisão e construção de relações mais saudáveis com o trabalho e consigo mesmas. Com experiência clínica e corporativa, é coautora do livro Impulsionadores de Carreira, professora em cursos de formação de orientadores de carreira e membro da SBPOT e da ABRAOPC.
www.psicologavirginiafranca.com.br

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