
Neide e seu pai, Natalin. Foto: Arquivo pessoal
“Não tenhas medo, me dê só uma margarida”! Uma flor! Essa frase, dita pelo meu pai há um ano, quando ele estava já bastante debilitado aos 95 anos de idade, me faz sentir hoje o anseio de escrever algumas palavras sobre a experiência maravilhosa que é poder ter os pais na sua idade madura, na sua idade linda, na sua velhice, e muitas vezes também na sua vivência onde já não sabem mais quem somos, nem mesmo quem eles são, mas nós sabemos quem são eles!

Foto: Magnific
E se provamos isso, é porque eles nos amaram desde sempre. É claro que estar com eles, cuidar deles, afrontar suas debilidades, exige paciência constante, pois os papéis se invertem e nem sempre é leve o fardo do cuidado; por isso, é necessário perdoar e pedir perdão, quantas vezes for preciso, e lembrar sempre que eles merecem o melhor de nós.
Não abandone seus pais em sua velhice
Cuide deles, o cuidado é um grande presente de Deus para nós, porque cuidar está no mais íntimo do ser humano, onde Deus nos criou em sua imagem e semelhança e nos confiou aos cuidados de nossos pais, que podem ser nossos pais biológicos ou também pessoas que nos acolheram e cuidaram de nós quando nem tínhamos consciência de quem éramos.

Neide, com seus pais, Rosa e Natalin (in memorian), juntamente com seus irmãos. Foto: Arquivo pessoal
A primeira experiência de sentir-se cuidado, acolhido e amado já está lá no nosso embrião, lá no seio materno, onde sentimos segurança, sentimos o amor de Deus por nós desde as entranhas, porque fomos gerados no mais íntimo do coração humano, no ventre de uma mulher, onde reside o mais íntimo de nós. Cuidado rima com amor, com paciência, com fé, rima com humanidade, com misericórdia, com confiança e com tantas outras virtudes que nós podemos descrever e que nascem do coração de Deus e nos tocam profundamente quando cuidamos uns dos outros.
Quando o salmista nos diz no Salmo 139, 16: “Teus olhos viram meu embrião. Em Teu livro estão inscritos todos os dias que foram formados, quando ainda nem existia o primeiro deles". Consigo sentir o quanto Deus é bom e nada do que é humano é estranho para ele.

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Pois, quando nossos pais envelhecem, o papel do cuidado se inverte. Ontem éramos nós que precisávamos deles para nos tornarmos pessoas, agora não é de nos surpreendermos que eles esperem de nós a aceitação dos limites com a mesma dignidade e paciência com que tiveram conosco. Foram eles que seguraram nossa mão para dar os primeiros passos, na velhice precisam da nossa mão para atravessar uma rua, para levar o alimento até a boca…
Não infantilize seus pais
Acredite neles, pergunte a opinião deles, dê autonomia para eles, pois autonomia é respeito, e quem ama respeita.
Deixe-os contar sobre a infância, sobre seus sonhos, conquistas, memórias… e se eles não contarem, pergunte, porque um dia essas respostas vão embora e não voltam mais.
“Não tenhas medo, dá-me só uma margarida”!
Volto a expressar a frase de meu pai, que em sua sabedoria diante do limite de seus dias em grande sofrimento físico e mental, me disse: “Não tenhas medo, me dê só uma margarida”! Pois, na casa de sua infância, havia um jardim de margaridas cultivado por sua mãe, onde ele certamente provou segurança, estima e acolhida nos cuidados maternos de minha avó e paternos de meu avô.

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E essa experiência marcante volta como alento e colo de Deus, que passa pelo transcendente do qual ele se aproximava sempre mais conforme os seus dias transcorriam entre dor e alegria, através do cuidado de sua esposa, filhos e netos. Essa maravilha de Deus acontece em nossa família quando somos cuidados e nos deixamos cuidar com amor e gratidão.
Os pais criam os filhos, ensinam a vida em sua totalidade, mostram o caminho do bem, da verdade e do amor. Agora cabe a nós não nos cansarmos de mostrar, ensinar, com paciência e humildade, como se eles voltassem ao seu corpo, cérebro e compreensão de uma criança descobrindo os primeiros passos do viver, mas com uma grande diferença, trazem em sua bagagem de sabedoria, muita luz e virtudes que nós ainda não alcançamos.
Neide Puel é consagrada da Congregação das Filhas de São Paulo. Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desejosa de encontrar, no mais profundo de cada pessoa, o Divino que a transcende.
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