
Foto: Pixabay
Nada mais oportuno para celebrar o dia dos namorados do que contar uma história. Não qualquer história, mas uma história de amor. Não de qualquer amor, mas de um amor “forte como a morte”, um amor capaz de incendiar o mundo por ser, ele próprio, “uma centelha divina”. Ouçamos com atenção.
É noite funda. O vento bate contra a janela, produzindo uma vibração sonora, do sussurro ao dilacerante uivo, eco das profundezas da escuridão de uma noite que parece não ter fim. Entre sono e vigília, quando realidade e sonho se confundem, uma voz – ou será apenas o sussurrar do vento? – inesperada e insistente: “Abre, minha irmã, minha amiga!” (Ct 5,2).
Seu corpo todo treme, pés e mãos não respondem aos comandos da mente. A voz insiste! Sim, é ele, o amado! Só podem ser suas essas palavras carregadas de ternura, de intimidade e secretos significados. Por mais intenso que seja o ruído do vento, não poderá suprimir os latidos de um coração apaixonado.

Foto: Pixabay
A amada titubeia em abrir a porta. De fato, é apenas uma adolescente encantada com essa força estranha que lhe está, ao mesmo tempo, sufocando e vivificando seu respiro.
As convenções da época não lhe permitiam abrir a porta a um estranho no meio da noite. Assim, dá uma resposta improvisada (Ct 5,3), qual improvisada é a furtiva visita do amado aventureiro. Coisa de adolescente, que não mede consequências quando o assunto é paixão.
O medo de ser surpreendido pelos irmãos violentos da mocinha, as delongas da mesma em abrir a porta, um lampejo de consciência de um ato tão inconsequente, obrigam o rapaz a bater em retirada. Quando ela, finalmente, alcança a porta, é tarde (Ct 5,5). Não lhe resta alternativa senão angústia e desespero (Ct 5,6).
Voltar para a cama? Nem pensar. No reino do Amor-paixão – “forte como a morte” (Ct 8,6) – contam pouco os imperativos da razão. Começa uma busca desesperada pelas ruas da cidade – Jerusalém, a cidade do Altíssimo; mas, também, a cidade “que mata seus profetas” –, ruas escuras, vazias, povoadas de fantasmas noturnos que ora despontam aqui e ali, ao cruzar uma esquina, ao atravessar uma praça. Quem dera fossem apenas os fantasmas!
De repente, os guardas da noite: “encontraram-me os vigias que rondavam pela cidade. Bateram-me, feriram-me, tiraram-me meu manto, os vigias da cidade” (Ct 6,7). A aventura noturna que começara com um ato tempestivo do amor termina em tragédia. Sem o amado, e ferida em sua dignidade de mulher, só lhe resta o vazio da perda. Eis uma das cenas mais intrigantes do Cântico dos Cânticos, ou, o Cântico mais sublime, um hino ao Amor!
Qual pedra rara, de altíssimo valor, esse brevíssimo livro de extraordinária beleza poética, enaltecido pelos maiores escritores de todos os tempos, está incrustado no centro da Bíblia Hebraica (o Antigo Testamento), quase esmagado pelos volumosos blocos literários da historiografia do povo de Israel e de seus profetas.
Não mais que quatro ou cinco páginas em nossas edições de Bíblias modernas, esse “intruso” solitário – de fato, qual outro livro bíblico se assemelha ao Cântico? – possui uma força atômica, capaz de abalar os pilares mais sólidos das convenções milenares de uma cultura religiosa que, por tantas vicissitudes, foi se afastando do amor fontal – se quisermos, edênico –, onde homem e mulher se reconheciam como “uma só carne”.

Foto: Pixabay
Quantas são as mulheres nas páginas da Sagrada Escritura a sofrer violência e ter suas vozes caladas!O Cântico, por sua vez, desafia esse regime, embora não se possa dizer que não tenha suas raízes fincadas na mais genuína fé de Israel, justamente, apresentado pelos profetas como a esposa – às vezes, infiel – do amoroso esposo, que é Deus.
Nas peripécias amorosas desse jovem casal, que está descobrindo a força do amor, qual energia benfazeja, mas igualmente terrificante – o Amor é uma “centelha divina”, cuja fúria não pode ser apagada sequer pelas “grandes águas” –, o Cântico, “simbolicamente”, conduz o leitor a descobrir e contemplar a fonte do Amor, aquele divino, único capaz de dar sentido à vida do ser humano, por ser ele criado à “imagem e semelhança” de Deus (Gn 1,26).
De fato, não foram poucos a ler o Cântico como um midrash (um tipo de releitura bíblica praticada pelo judaísmo já na época do Antigo Testamento) dos primeiros capítulos de Gênesis, onde o amado e a amada figuram como uma nova versão de Adão e Eva, porém, em plena comunhão com a criação e totalmente livres para amar.

Foto: Pixabay
Embora não se trate de um retorno ao Éden perdido, o Cântico ousa acreditar que o Amor autêntico – divino e humano – possua a força para transformar esse mundo num verdadeiro jardim, onde a comunhão entre os amantes – homem e mulher, e ambos com Deus – devolveria à terra aquela beleza primigênia perdida.
Mas, a propósito, como termina aquela noite fatídica, de perda e angústia? A amada, pela manhã, se encontra com suas amigas – as Filhas de Jerusalém – e pede ajuda para encontrá-lo. Mas, como será esse amado? A resposta da amada é enigmática e, ao mesmo tempo, reveladora: “Meu amado desceu ao seu jardim [...] para pastar nos jardins” (Ct 6,1).

Foto: Pixabay
Segundo os comentadores, “jardim” é uma metáfora para o corpo da amada, ou seja, ela mesma é o jardim. Seu amado se encontra no “seu jardim”, ou seja, onde quer que ele se encontre fisicamente, sempre estará no coração da amada como ela está no dele. “Eu sou para o meu amado, e um amado é para mim” (Ct 6,3). Eis a certeza que sedimenta o amor dos apaixonados!
Não é o tempo, nem a distância, não será sequer a morte, qual obstáculo incontornável, a pôr fim no Amor, pois após a passagem por esse mundo de cada casal enamorado, surgirão outros, dardejados pelo mistério do mesmo Amor. Assim, segundo o Cântico, o amor não se finda com a morte dos cônjuges, mas continua agindo no mundo, atravessando a história, invadindo todos os corações, conduzindo-os, sedutoramente, ao Amor fontal.
Luciano Zilli é bacharel em Filosofia pela Faculdade Católica de Anápolis (2015) e em Teologia pela Ateneum Pontificio Regina Apostolorum, em Roma (2005); mestre em Ciências Bíblicas e Arqueológicas pela Studium Biblicum Franciscanum, em Jerusalém (2009), e em Ciências da Educação pela Universidade Federal do Tocantins, em Palmas (2017); doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE-MG). É pároco na Paróquia São José (Parque Guarani - SP). Co-autor da obra: Itinerários de fé na Bíblia, com o artigo: A Sulamita no Cântico dos Cânticos: a fé e a fidelidade.
Para aprofundar-se sobre o itinerário de fé da Sulamita, a amada do Cântico dos Cânticos, adquira o livro: Itinerários de fé na Bíblia.
Leia mais
