Comunicação

Quaresma e mídia: a orientação do Evangelho

 

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Conversão: um olhar para Deus e para o irmão

O termo Quaresma refere-se ao tempo da Liturgia, que abrange 40 dias em que a Igreja católica segue um ritual de orações e celebrações, textos bíblicos voltados à conversão e à mudança de vida.

Mas qual é o sentido mais profundo de conversão? É reconhecer que só Deus é Deus e o ser humano é criatura dependente dele; é reconhecer que Deus é Pai e todos somos irmãos, daí a palavra fraternidade. É o Deus da Aliança: “O Senhor nosso Deus selou conosco uma aliança. Não foi com nossos pais que o Senhor selou a aliança, mas foi conosco, todos os que, hoje, aqui estamos vivos” (Dt 5, 2-3).

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 E a conversão nos convida a ter um olhar vertical e outro horizontal. O vertical mantém os pés na realidade e olha para o alto, o céu, de onde está Deus; o horizontal convida a dar as mãos ao outro, que se torna irmão. Por isso, a conversão relaciona-se a Deus e ao próximo, uma vez que a prova de que amamos a Deus é ser concreto e fraterno com o irmão, a irmã. 

O Evangelho de Mateus, da liturgia da Quarta-feira de Cinzas, capítulo seis, versículo um, diz textualmente: “Tende cuidado de não praticar vossa justiça diante dos homens somente para chamar a atenção!” No versículo cinco, reforça: “Quando orardes, não façais como os hipócritas, porque gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para exibir-se diante dos homens”. 

Justiça bíblica e a tentação da visibilidade

E podemos nos perguntar como atualizar esse Evangelho. O que entendemos por justiça no sentido bíblico? Sabemos que se refere a fazer a vontade de Deus, dando a Deus o que é dele, no relacionamento, na fraternidade, com o próximo e no cuidado da Criação. 

E a insistência de não viver para chamar a atenção das pessoas, ou para exibir nossas qualidades, as boas obras e até nossa oração diante das pessoas. Isso acontece de forma presencial, mas hoje tudo é colocado na mídia com qual finalidade? Para ser visto, para ter seguidores, cliques, para monetizar ou para a “glória de Deus e a paz da humanidade”, para que Deus seja conhecido, amado, glorificado?

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Hoje a mídia é o espaço público, a praça, a esquina da rua, até mesmo as igrejas. O papa São João Paulo II, na Carta Encíclica Redemptoris Missio,  sobre a validade permanente do mandato missionário, chama os meios de comunicação de “areópagos”, lembrando Atos dos Apóstolos, capítulo 17, quando Paulo foi para Atenas e viu uma mensagem: ao deus desconhecido.

Este era um lugar onde se reuniam intelectuais e estudiosos para tratar de religião, educação e das novidades. Ali, Paulo anunciou Jesus Cristo morto e ressuscitado. A maioria o rejeitou, dizendo que o ouviria outra vez. Mesmo assim, alguns acolheram a Palavra. O areópago é comparado a um lugar difícil para o anúncio do Evangelho.

Mídia como areópago: desafio e missão

Pensando na mídia como esse areópago, por que continua hoje um lugar difícil para o anúncio do Evangelho? O acesso nem sempre é difícil, mas a lógica que o rege é outra: o mercado, o consumo, a visibilidade, diferente da proposta de Jesus.

Na proposta cristã, quem vai para a mídia, não vai em próprio nome, mas para anunciar Jesus morto e ressuscitado; não vai para projetar-se a si mesmo, mas para apontar para o centro da mensagem, Jesus Cristo; não é movido pelos cliques, pelo número de seguidores ou pelos aplausos, mas pelo Espírito Santo que se serve dele ou dela como instrumento para despertar na pessoa que acompanha o seguimento de Jesus. 

Para não entrar na lógica do mercado, importa cultivar uma profunda espiritualidade que coloca Jesus Cristo e o seu reinado no centro e não os interesses pessoais ou de grupo.

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O beato Tiago Alberione, fundador da Família Paulina, orienta para o que pode ser aplicado à exposição na mídia, hoje: “Notamos nesta época uma grande agitação, um grande movimento de iniciativas que visam levar Jesus Cristo ao mundo. Nem sempre se parte da fonte; então a palavra que é comunicada é uma palavra nossa. É preciso dar a palavra de Jesus Cristo. Não exponhamos a nós mesmos, mas a Jesus Cristo”.  

Conversão e mídia podem ser aliados na evangelização, desde que o comunicador, a comunicadora, tenha isso como missão e não promoção pessoal ou auto-referência.

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A mídia em todas as suas expressões, nesta cultura digital, precisa ser expressão da comunidade que vive e testemunha o Ressuscitado. Viver em contínua conversão é um processo que acompanha a todos nós para que nossas obras sejam testemunho de que Deus ama a todos e os quer como filhos e filhas.  

 

Helena Corazza, fsp, é co-autora do livro “Espiritualidade do comunicador. Viver a mística nos tempos atuais”.

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