Artigos
Artigos

Resiliência em Cristo: a experiência de São Paulo Apóstolo

Foto: Pexels

O mês de janeiro nos convida a contemplar as experiências e missão de São Paulo Apóstolo. Um aspecto marcante de sua vida é a certeza da presença de Jesus em meio aos sofrimentos, fraquezas e a todo tipo de tribulação. Ele é exemplo de apóstolo de Jesus, na alegria e na tristeza, no sucesso e no fracasso. Ao assumir sua humanidade, acolheu suas fraquezas e vulnerabilidades, fortalecendo-se na missão até tornar-se um modelo de pessoa resiliente. Ele mesmo afirma: “se tivesse que me gloriar, me gloriaria nas minhas fraquezas, por causa do Evangelho” (2Cor 12,9-10).

O que é resiliência

Resiliência é um termo de destaque nas ciências humanas e da saúde. O original latino resiliens, resilientis, do verbo resilio-resilire, quer dizer “saltar para trás, recuar, ser impelido, retornar a um estado anterior”. A psicoterapeuta Rosemarie Welter, sugere a compreensão de que “resiliência designa a potencialidade da pessoa de superar situações extremamente complexas, servindo-se de capacidades pessoais e socialmente transmitidas, e delas apropriar-se para o desenvolvimento pessoal” Desse modo, ser resiliente não significa voltar ao estado anterior ao sofrimento de forma ilesa, porque o enfrentamento das adversidades e o esforço para apreender algo novo e ser capaz de refazer-se, não ignora as feridas e cicatrizes que os eventos provocam.

Paulo e sua marcante experiência no caminho para Damasco

Muitos santos e mártires ressignificaram o sofrimento por meio de encontros transformadores. Para Paulo, esse marco foi o encontro pessoal com o Senhor Ressuscitado, narrado em três relatos no livro dos Atos dos Apóstolos (At 9,1-19; 22,3-11; 26,13-18). Elementos simbólicos como a luz do céu, a queda, a cegueira e a nova visão indicam uma ruptura radical entre o “antes” e o “depois”. Paulo, antes perseguidor dos cristãos (cf. Gl 1,13), reconheceu seu erro e acolheu a vocação divina. Essa experiência foi pessoal e comunitária, confirmada pela visita e batismo realizado por Ananias, enviado por Jesus para fortalecer o apóstolo e anunciar-lhe: “Eu lhe mostrarei o quanto deverá padecer por causa do meu nome” (At 9,16).

Foto: Pexels

Carlos Mesters interpreta esse episódio como uma tempestade que lapidou Paulo, tornando-o um “diamante”, cujas facetas são reveladas na fidelidade de Deus (cf. 2Cor 1,20), na consciência do próprio nada (cf. Rm 7,24), na imersão no amor gratuito de Deus (cf. Rm 8,31-39) e na identificação com Cristo crucificado e ressuscitado (cf. Gl 2,20). Paulo expressou essa transformação ao afirmar ter sido alcançado por Cristo (cf. Fl 3,12). 

Paulo: modelo de resiliência

A resiliência de Paulo se evidencia em várias passagens de suas cartas. Apesar das perseguições, prisões e fracassos — como o insucesso em Atenas (At 17,32), o sentimento de fracasso e temor, reflexo das dificuldades enfrentadas (cf. 1Cor 2,3). Carlos Mesters destaca que essa trajetória revela a consciência dos próprios limites, prolongando o “nascimento doloroso” iniciado em Damasco.

Esse caminho de autoconhecimento, fundamental para quem segue Jesus, exige persistência e resiliência. Amedeo Cencini aponta que a primeira “conversão” de Paulo mudou seus referenciais; a segunda o confrontou com sutil tendência ao protagonismo pessoal. Em 2Cor 12,7-10, Paulo manifesta a transformação pela graça divina e revela que sua força está na união com Cristo, não a si mesmo 2Cor 4,5.10. Ao listar sofrimentos vividos, demonstra consciência e realismo, ressignificando sua vulnerabilidade à luz da vocação e do amor divino. Uma profunda e necessária experiência mística de morrer para si e viver para Cristo, (Gl 2,19b-20), como afirma o biblista Eloy e Silva. E ainda, na prisão, sente a dor da solidão, do abandono do desamparo e da ingratidão (2Tm 4, 9-16). E qual foi a presença que jamais se afastou dele? Jesus Cristo (2Tm 4,17). A união com Cristo ensinou Paulo que a força divina se manifesta na fragilidade: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,9-10).

Foto: Pexels

Paulo sofria não por ser forte, mas pela união com Cristo, que lhe dava resiliência. Assim, torna-se exemplo de resiliência ao se espelhar em Cristo, abraçar a cruz e enfrentar as adversidades com esperança (cf. 2Cor 4,8), perseverança (cf. 2Cor 6,4), pureza, magnanimidade (cf. 2Cor 6,6), amor sincero, alegria (cf. 2Cor 6,10), solicitude (cf. 2Cor 11,28) e a capacidade de regozijar-se nas dificuldades por Cristo (cf. 2Cor 12,10).

Conclusão

A trajetória de Paulo nos ensina que a resiliência verdadeira nasce da fé e da confiança na graça divina, que transforma e fortalece mesmo diante das maiores dificuldades. Sua vida nos convida a abraçar nossas fragilidades como espaço onde a força de Deus se revela, renovando nossa esperança e sustentando nossa missão.

Portanto, o Senhor não isenta ninguém do sofrimento, mas fortalece e restaura quem nele confia, nos momentos em que a dor é profunda e não há no que se segurar. Dentre tantos exemplos desse processo, o caminho de Paulo — desde seu “encontro” com Jesus em Damasco — evidencia as inúmeras adversidades que enfrentou e superou com a resiliência potenciada pelo dom da fortaleza e da espiritualidade centrada no Senhor: “Por causa de Jesus!” (2Cor 4,5.11). Portanto, sua resiliência veio por reconhecer-se amado pelo Senhor, por abraçar a própria humanidade, pela perseverança e paixão por Jesus. Em Cristo, ele se nutriu e viveu mediante a fé (cf. Gl 2,20).

Ao término desta reflexão, convido você a pensar que a capacidade de reagir com resiliência é possível quando se acolhe positivamente a própria fraqueza e vulnerabilidade. As “tempestades” no decorrer do caminho pode nos ferir, mas, o processo de autoconhecimento e coragem de se “vulnerabilizar” é nova página que se inicia na trajetória da vida.  E mais, pode-se sempre recorrer com humildade à ajuda de quem, com sua presença, ministra o “bálsamo” que cura as feridas e ameniza o sofrimento. Com convicção, pode-se afirmar que é na relação vital com Jesus Cristo, que como amigo, se faz próximo e envia mediadores — os “Ananias” — para comunicar a sua Palavra de vida e alargar o horizonte de vida e esperança diante de nós.

E para refletir: Como você tem acolhido as fragilidades e desafios em sua vida? De que modo o exemplo de Paulo pode inspirar sua resiliência na caminhada da fé e da missão?

Ir. Adilse Xavier é religiosa da Congregação das Filhas de São Paulo. Graduada em Filosofia e Teologia, dedica-se à evangelização por meio da Palavra, da escuta e da escrita. Com amor à missão paulina, valoriza os encontros autênticos e acredita na construção de um mundo mais humanizado à luz do Evangelho.

Site Desenvolvido por
Agência UWEBS Criação de Sites