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A Bíblia, em sua essência, narra o caminho de fé que a humanidade viveu e testemunhou; portanto, cada texto que compõe a Bíblia tem o objetivo de ser uma mensagem catequética.
Para o mês da Bíblia de 2026, foi escolhido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) o livro de Daniel. Trata-se do único livro do Antigo Testamento que, originalmente, foi escrito em três diferentes línguas: aramaica, hebraica e grega. O livro de Daniel se diferencia porque combina duas formas literárias, ou seja, nele há textos narrativos e também textos apocalípticos.
Assim, são apresentados dois pontos de vista sobre como viver sob dominação estrangeira, unificados pela temática da resistência e da fidelidade a Deus. Perceber isso ajuda o leitor a entender que, nas entrelinhas do texto, Deus fala e convida cada um a contemplar a história e a integrá-la à própria vida, interpretando-a à luz da Palavra.

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A estrutura do livro de Daniel
O livro de Daniel é constituído por dois grandes blocos. O primeiro bloco é formado pelos capítulos de 1 a 6, o qual pode também ser subdividido em duas temáticas: a dos “relatos de disputa” (Dn 2, 4 e 5) e a dos “relatos de conflito” (Dn 3 e 6).
Nesta primeira parte do livro, Daniel e seus companheiros representam a postura de quem confia em Deus, mantendo-se fiéis aos preceitos divinos mesmo diante de figuras autoritárias.
Os capítulos de 7 a 12, por sua vez, compõem o segundo bloco e relatam visões apocalípticas que, por meio da profecia ex-evento, ou seja, textos que narram o passado como se fossem acontecimentos futuros, têm o objetivo de denunciar a opressão de Antíoco IV Epífanes, e que, ao mesmo tempo, anunciam a vitória final de Deus.
Daniel na cova dos leões. Imagem gerada por IA usando o Gemini por Viviani Moura
Essa unidade temática entre as duas partes aponta para a mensagem central do livro: exortar a comunidade a permanecer perseverante na fé, mesmo em tempos de crise e perseguições.
A realidade religiosa e política do livro de Daniel representa uma comunidade em crise, mas que aguarda com esperança a salvação da parte de Iahweh. A luta entre “bem” e “mal”, bem como, a presença de um personagem exemplar, inspirado por Deus, e um linguajar edificante, que incentiva a confiança e a obediência, são elementos que perpassam todo o livro de Daniel.

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É diante desta panorâmica que emergem questionamentos fundamentais, pois, se o livro de Daniel descreve um tempo de crise, em que os fiéis resistiram às perseguições, nutridos pela esperança em Iahweh, no contexto social e religioso atual, marcado por “luzes e trevas”, tornam-se pertinentes as seguintes perguntas:
1. A quê, a quem e por quê é necessário resistir?
Resiste-se à cultura do descarte, à idolatria do dinheiro, do sucesso e da violência. Resistimos a sistemas geradores de desigualdade e a quem promove injustiça contra os frágeis. Como os sábios de outrora, somos chamados a discernir os valores do Reino em meio à cultura que os nega.
Resistimos para preservar nossa identidade de fé, sem nos deixarmos cooptar por valores que nos afastam de Deus e do próximo. A resistência dos santos, como em Daniel, é expressão da soberania divina e participação ativa no Reino, recusando-se a curvar-se aos “impérios das feras”.

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2. Esperar o quê? Em quem? E, por quê?
Esperamos a plena justiça divina, que constitui um mundo de paz e fraternidade. As visões de Daniel (cap. 7) oferecem uma “imaginação alternativa à lógica imperial”: a justiça divina se revela na perseverança dos justos.

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Desse modo, depositamos nossa esperança em Deus, Senhor da história, fonte de sabedoria e verdade. O livro de Daniel deixa claro: Deus conduz a história, não os impérios; Ele trará a vitória final do “bem” sobre o “mal”.
Essa esperança nos capacita a resistir e perseverar na fidelidade, com a certeza de que o domínio eterno pertence aos que perseveram até o fim em sua fé (Dn 12,12), pois “o seu Reino jamais será destruído” (Dn 7,14).
Bibliografia
SOARES. O livro de Daniel. Literatura de resistência? Estudos Bíblicos, 2011, 28.109: 29-42.
SILVANO, Zuleica. Livro de Daniel: “Daí graças ao Senhor, porque Ele é bom” (Dn 8, 89). Paulinas, 2026.
A Bíblia. Paulinas, 2023.
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