Todos os anos, em 17 de setembro, a Igreja celebra Santa Hildegarda de Bingen, uma das figuras mais surpreendentes da Idade Média. Monja beneditina, mística, teóloga, compositora, escritora e estudiosa da natureza, ela deixou uma obra tão ampla que continua despertando interesse muitos séculos depois de sua morte.
Entre os temas que mais chamam a atenção atualmente estão seus escritos sobre a saúde. Ervas, alimentos, plantas, pedras, hábitos de vida e diferentes formas de cuidar do corpo aparecem em obras atribuídas a ela e são frequentemente recuperados por pessoas que procuram conhecer as suas orientações.
Mas quem foi essa mulher? E como compreender hoje aquilo que ela escreveu sobre saúde sem perder de vista o contexto de sua época?

Ícone de Santa Hidegarda. Imagem: Reprodução
Uma mulher muito à frente de seu tempo
Hildegarda nasceu em 1098, na região do atual território alemão, e, desde criança, relatava experiências místicas. Aos poucos, sua vida religiosa foi acompanhada por uma intensa atividade intelectual e pastoral.
Ela escreveu obras teológicas e espirituais, compôs música sacra, manteve uma extensa correspondência e tratou de temas relacionados à natureza e à medicina. O conjunto de seus escritos impressiona pela variedade. O próprio Papa Bento XVI destacou que seus estudos não encontram comparação (em quantidade e diversidade de interesses) com o de outra autora medieval.
Em 2012, Hildegarda foi proclamada doutora da Igreja. A Igreja reconheceu, assim, não apenas sua santidade, mas também a relevância de sua doutrina para os cristãos de todos os tempos. Desde 2021, sua memória litúrgica está inscrita no Calendário Romano Geral em 17 de setembro.
Ervas, alimentos e pedras: o que ela escreveu?
Entre suas obras de caráter científico e natural está a Physica, dedicada às propriedades atribuídas a diferentes elementos da criação. Há ainda o Causae et Curae, relacionado à saúde e às doenças.
Nesses escritos, aparecem plantas, alimentos, animais, minerais e pedras, além de observações sobre o funcionamento do corpo e formas de cuidado conhecidas naquele período.
É daí que vem o interesse contemporâneo por aquilo que hoje costuma ser chamado de “medicina de Santa Hildegarda”. Na internet e em livros dedicados ao tema, é possível encontrar receitas, chás, preparações com ervas, recomendações alimentares e usos de pedras recomendados pela santa.
É importante, porém, fazer uma distinção. Os textos de Hildegarda pertencem ao conhecimento médico e natural do século XII. Portanto, não devem ser tratados automaticamente como substitutos da medicina atual nem como prescrições médicas para doenças específicas. Nunca é demais falar sobre adotar os métodos da doutora com prudência e orientação profissional.
Contudo, conhecer o que ela escreveu pode ser uma oportunidade de compreender como uma mulher medieval observava a criação e buscava relacioná-la ao cuidado da pessoa.
Para Hildegarda, a criação apontava para Deus
Talvez esteja aqui uma das maiores riquezas de sua visão. Hildegarda não separava simplesmente o mundo natural da sua experiência de fé. Para ela, a criação era obra de Deus e podia conduzir à contemplação do Criador. Bento XVI destacou precisamente esse aspecto ao recordar seu amor pela criação e sua compreensão da natureza à luz da fé.
Isso ajuda a compreender por que seus escritos sobre plantas, alimentos e natureza não podem ser lidos isoladamente de sua espiritualidade. A saúde do corpo fazia parte da existência humana, mas a pessoa não se reduzia ao corpo. A mulher que estudava ervas e alimentos era a mesma que escrevia sobre Deus, a Igreja, a criação e a salvação.
Por isso, recordar Santa Hildegarda pode ser também um convite a recuperar uma visão mais integral da pessoa: cuidar do corpo, cultivar a vida interior, alimentar a fé e reconhecer que a existência humana permanece nas mãos de Deus.
E quando a doença chega?
A experiência cristã não promete uma vida sem enfermidades. Até mesmo Santa Hildegarda, que dedicou atenção à saúde, morreu depois de adoecer, em 17 de setembro de 1179.
Diante da doença, portanto, o cristão pode procurar tratamento, recorrer aos conhecimentos da medicina, cuidar da alimentação e do corpo e, ao mesmo tempo, rezar.
Uma coisa não exclui a outra.
A oração pela saúde não é uma maneira de negar a realidade da doença, e sim de colocá-la diante de Deus. Pode ser um pedido de cura, mas também de força, serenidade, discernimento e perseverança para atravessar um período difícil.
Na tradição cristã, Jesus aparece repetidamente próximo dos enfermos. Ele escuta, acolhe, toca, consola e cura. Por isso, quando alguém sofre, pode dizer simplesmente: “Senhor, cuida de mim”. Palavras simples, mas que partem do coração.
Uma santa para contemplar, rezar e conhecer
A vida de Santa Hildegarda permite uma aproximação particularmente bonita entre fé, cultura, natureza e música. Ela foi uma mulher de oração e de grande atividade intelectual, uma compositora de música sacra e uma estudiosa que procurou compreender o mundo criado sem deixar de olhar para seu Criador.
Por isso, a cada 17 de setembro, além de conhecer suas obras e sua contribuição para a história, vale fazer uma pausa para rezar por quem está doente. Pode ser alguém da família. Um amigo. Uma pessoa internada. Alguém que enfrenta uma doença prolongada. Ou até mesmo nós próprios.
E, enquanto fazemos essa oração, podemos deixar que a música também se transforme em prece. Entre as possibilidades para este momento está o álbum Cura-me, Senhor, e serei curado, de Frei Luiz Turra, disponível nas plataformas digitais.
Rezando pela saúde é outra opção de playlist com cânticos, Terço da Saúde e demais orações para interceder por quem sofre ou rezar por si a fim de pedir a cura ou o abandono diante da enfermidade.
Mais do que procurar em Santa Hildegarda uma fórmula para não adoecer, podemos aprender com ela a olhar para a criação com admiração, cuidar responsavelmente da vida que recebemos e voltar o coração para Deus também nos momentos de fragilidade.
Santa Hildegarda de Bingen, rogai por nós e por todos os que precisam da cura do corpo, da mente e do coração.
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