
São Jorge luta contra o dragão. Imagem: Domínio Público via Wikimedia Commons
Um é o padroeiro das causas urgentes, o outro é o “santo guerreiro”, protetor dos soldados. Ambos são comemorados no mês de abril e possuem traços em comum: antiguidade, carreira militar, martírio, milagres e mensagem de conversão.
Já sabe quem eles são? Estamos falando de Santo Expedito (19 de abril) e São Jorge (23 de abril), dois santos muito conhecidos entre os católicos.
Antiguidade
Acredita-se que Santo Expedito e São Jorge tenham vivido por volta do final do século III e início do século IV, ambos provenientes de regiões que hoje chamamos de Ásia Central e Ásia Menor. Esses territórios foram evangelizados logo no início do cristianismo e se tornaram berços de muitos santos. Por causa dessa raiz tão antiga, não existem muitos relatos escritos e confiáveis, o que torna difícil atestar detalhes da sua história ou até mesmo comprovar a sua existência. “O que existe são contos piedosos que se parecem com as antigas lendas de heróis e não exatamente biografias. Com o fim da perseguição religiosa, as comunidades cristãs escreveram as chamadas Atas e Paixões dos santos mártires, recordando com amor os nomes e as histórias desses grandes personagens que deram a sua vida pela fé”, explica o padre João Custódio Cosmi Cunha, da diocese de São Mateus (ES), mestrando em Teologia Bíblica na Pontifícia Universidade Gregoriana.
Carreira militar
Santo Expedito foi um soldado que alcançou o posto de comandante em uma das legiões do poderoso exército do Império Romano. Ao entrar em contato com as primeiras comunidades cristãs, acabou se convertendo, mesmo ciente dos perigos de assumir publicamente sua fé em Jesus — afinal, vivia-se ainda o tempo das intensas perseguições aos cristãos promovidas pelos imperadores romanos. Já São Jorge também atuou como militar romano nesse mesmo período, durante o governo do temido imperador Diocleciano. No entanto, ao contrário de Expedito, ele já seguia o cristianismo antes mesmo de ingressar no exército.

Ilustração antiga de Santo Expedito, padroeiro das causas urgentes. Imagem: Domínio Público via Wikimedia Commons
Martírio
São Jorge e Santo Expedito viveram no tempo dos mártires da Igreja. A palavra “mártir” vem do grego e significa “testemunha”. Assim, os mártires são aqueles que, mesmo diante da perseguição e da ameaça de morte, não abandonaram sua fé cristã. Pelo contrário, tornaram-se verdadeiras testemunhas da fé em Cristo, entregando a própria vida com obediência e fidelidade ao evangelho — assim como Ele próprio fez.
Ambos foram entregues por seus próprios companheiros militares. Entre os terríveis castigos possíveis, os dois santos morreram do mesmo modo: foram decapitados. “Essa era uma pena realizada em público, que servia de exemplo para os demais cidadãos: quem não quiser morrer do mesmo modo, que cumpra a lei do imperador! Os cristãos, porém, não se renderam ao medo e continuaram perseverantes na sua profissão de fé. Como dizia Tertuliano, um antigo escritor cristão: ‘o sangue dos mártires é a semente de novos cristãos’”, completa o padre João Custódio.
Padre João Custódio Cosmi Cunha, da diocese de São Mateus (ES), mestrando em Teologia Bíblica na Pontifícia Universidade Gregoriana. Foto: Arquivo Pessoal
Milagres
Ser um soldado do exército romano era uma posição de muito prestígio social. Um soldado que se convertia à religião cristã era, então, um sinal forte e um testemunho vigoroso da importância dessa nova fé que estava surgindo. Por causa disso, a fama de Jorge e Expedito foi se espalhando e muitas histórias de milagres alcançados por sua intercessão foram sendo contadas e amplamente divulgadas.

São Jorge e o Dragão, do pintor francês Gustave Moreau. Imagem: Domínio Público via Wikimedia Commons
“Uma das histórias mais famosas sobre São Jorge diz que havia um grande pântano na região da Líbia, onde vivia um dragão muito temido pelo povo do local. Para aplacar a ira do dragão, deveriam sempre ser oferecidos a ele dois cabritos e um jovem. Certa vez a sorte caiu sobre a princesa da cidade. Sabendo da tragédia iminente, Jorge se dirigiu ao pântano, matou o dragão com a sua espada, e pôs fim à prática de sacrifícios humanos naquela região. Por causa desse episódio, São Jorge passou a ser invocado como padroeiro dos soldados, dos cavaleiros, escoteiros, esgrimistas e arqueiros, e também protetor contra a peste, a lepra e as serpentes venenosas”, conta o padre.
Santo Expedito, por sua vez, é invocado como santo das causas urgentes, que exigem solução imediata. Isso se deve ao fato de sua conversão ter sido uma decisão rápida e firme a ponto de pouco depois de se tornar cristão ter já se tornado um corajoso mártir.
Mensagem de conversão
Através da solidez da sua fé, São Jorge colocou fim à prática dos sacrifícios humanos naquela região que ele evangelizou através do seu exemplo e testemunho. A derrota do dragão, para além de um fato, é um símbolo forte: nenhum mal pode vencer o poder de Deus! “Nada existe de mais forte do que o amor do Pai que enviou o seu Filho ‘para que todos tenham vida, e vida plena’ (cf. Jo 10,10). Aderir ao evangelho, à fé em Jesus Cristo, significa abandonar as antigas práticas em vista de viver a novidade absoluta do amor de Deus, manifestado de uma vez por todas na entrega de Jesus na cruz”, explica o padre João Custódio.

Pintura a óleo do século 18 retratando o Santo Expedito. Imagem: Domínio Público via Wikimedia Commons
Quando olhamos a imagem de Santo Expedito, vemos sempre dois símbolos que prendem a atenção: ele pisa sobre um corvo, que tem à sua volta uma faixa escrita “cras”, uma palavra latina que significa “amanhã”; na mão ele segura uma cruz com a palavra “hodie”, também em latim, que significa “hoje”. Essa é a síntese da história do próprio Expedito: nada de deixar a conversão para amanhã: crer em Jesus é um processo que se inicia hoje! “Quanto mais adiamos a transformação da nossa vida, mais nos distanciamos de Deus e do seu amor misericordioso. Que estes dois santos nos inspirem em nosso caminho diário de conversão e nos ajudem a ser fiéis discípulos missionários de Jesus Cristo”, finaliza o padre.
