Em entrevista exclusiva por ocasião do Dia de São José, celebrado em 19 de março, o teólogo padre Pedro Rubens Ferreira de Oliveira, reitor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e autor da obra “Novena dos sete sonhos de São José”, apresenta as múltiplas facetas do santo que exerceu a paternidade terrena de Jesus.
- Sobre a importância para a Igreja: o papa Francisco declarou um ano dedicado a São José e fala dele com grande carinho. Para o senhor, qual é o lugar e a importância desse santo tão silencioso, mas tão presente na vida da Igreja hoje?
Padre Pedro Rubens - Gostaria, antes de tudo, de recordar as palavras do papa Francisco, num discurso às famílias: “Eu gosto muito de São José porque é um homem forte e silencioso. No meu escritório, eu tenho uma imagem de São José dormindo, e mesmo dormindo ele cuida da Igreja. Quando eu tenho um problema ou uma dificuldade, eu escrevo em um papelzinho e o coloco embaixo de São José para que ele sonhe sobre isso.
Isso significa: para que ele reze por esse problema”. Creio que a importância para a Igreja, uma instituição complexa e internacional, primeiramente, está relacionada com a necessidade de fortalecer o silêncio da oração, mas também com a capacidade de sonhar com uma humanidade nova, um mundo novo, uma vida nova. Em segundo lugar, como José, transformar sonhos em realidade concreta: muitas vezes, falamos muito e agimos pouco, o que gera descrédito. Enfim, falamos de tudo e temos resposta para tudo ou respostas antigas diante de situações novas: inspirados no silencioso de José e em Maria, que meditava e “guardava tudo em seu coração” (Lc 2,19.51), precisamos, na Igreja e como Igreja, escutar mais e, com o coração, escutar as pessoas e suas realidades, antes de ter resposta/receita para tudo.
- Muitos fiéis têm devoção a São José, mas, às vezes, ficam em dúvida. Em quais situações da vida devemos recorrer especialmente à intercessão dele? Ele é realmente o “santo das causas impossíveis”?
Padre Pedro Rubens - Eu diria que São José é o “santo dos sonhos possíveis” ou “santo dos sonhos que transformam a vida”. Os sonhos que transformaram a vida do bom e justo José também podem transformar a nossa vida, a vida de muita gente. A devoção de nosso povo é grande porque São José representa uma série de situações das quais ele é padroeiro (protetor e defensor) e patrono (modelo ou intercessor). Por um lado, ele é padroeiro da Igreja Universal (pelo Papa João Paulo II, em 1989); do povo trabalhador em geral, tanto de operários(as) da cidade (1º de maio) como de camponeses(as) (19 de março, sobretudo no Nordeste); enfim, padroeiro da família, junto com Maria e Jesus. Por outro lado, São José é patrono dos pais, dos carpinteiros e da boa morte, realidade da qual não escapamos, mas importa pedir que São José interceda pela boa morte diante de tantas mortes antecipadas, por violência, por falta de tratamento devido ou fatalidades. Enfim, eu acrescentaria que São José é padroeiro de migrantes e refugiados(as), porque teve que fugir com a família (para o Egito), e pode ainda ser patrono de quem sonha – ou intercessor exemplar –, para que, diante de tantas situações desalentadoras, não percamos a capacidade de sonhar os sonhos de Deus para nossa vida e para uma humanidade nova.

Pe. Pedro Rubens Ferreira de Oliveira, SJ, autor da Novena dos Sete Sonhos de São José
- Sobre o simbolismo dos sonhos: os sonhos de São José no Evangelho são muito marcantes – ele sonha e acolhe a vontade de Deus. O que esses sonhos representam para a nossa vida espiritual e como podemos aprender a “sonhar” com Deus, como ele?
Padre Pedro Rubens - A tradição de sonhar está presente em muitas civilizações antigas, culturas e religiões, não somente como sabedoria dos povos, mas também como ciência, estudada na psicanálise, na medicina, na biologia molecular e na neurofisiologia (Ribeiro, Sidarta. O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho, 2021). Portanto, os sonhos são importantes para todas as pessoas. Durante a pandemia, imaginei que, depois daquela experiência traumática, poderíamos perder a capacidade de sonhar e ter esperança. Por isso, comecei a elaborar duas novenas: a dos “Sete sonhos de São José” (Paulinas, 2024) e a novena de “Nossa Senhora da Esperança” (Loyola e Paulinas, 2025). Descobri que Deus só fala com José através dos sonhos; portanto, é uma forma de rezar dormindo e agir, conforme o sonho, quando acorda. É interessante como José, segundo o relato bíblico, decide abandonar Maria, a mulher de seus sonhos. É curioso que esteja escrito “como ele era justo, resolveu abandonar Maria em segredo”, sem difamá-la: ele iria fugir da realidade, em outras palavras. Deus faz com que ele volte a sonhar (Mt 1,20-21), o que o leva a retornar a Maria para realizar o sonho maior de sua vida, sem temer as consequências. Depois, ele sonha com o perigo (Mt 2,13) e refugia-se, com Maria e Jesus menino, no Egito. Sonha novamente (Mt 2,19-20) e decide voltar, pois a ameaça do inimigo já não existe (morte de Herodes), e sonha uma quarta vez, sendo orientado a ir não para Belém, mas para Nazaré, na Galileia (Mt 2,22-23), certamente porque havia mais possibilidades de trabalho.
- Mas, nos relatos bíblicos, só aparecem quatro sonhos. Como surgiu a inspiração para propor essa novena tão diferente de todas as outras de São José?
Padre Pedro Rubens - Bem, por que falei de sete sonhos, se nos Evangelhos só aparecem quatro, é simples: a gente também sonha acordado, e José, o santo sonhador, também o fazia. Primeiro, entende-se nas entrelinhas do texto que ele sonhava em casar-se com Maria, mulher de seus sonhos (Mt 1,18); segundo, está escrito, e a tradição confirma, que José era justo (Mt 1,19), e uma pessoa justa sonha com um mundo melhor, mais justo; enfim, de acordo com a tradição, mesmo sob o silêncio nas Escrituras, José teve uma boa morte, um sonho que devemos ter também. Mas como esses “sete” sonhos dão uma novena, isto é, oração de “nove” dias ou noites? Acrescentei uma abertura (para rezar sobre a importância dos sonhos) e um encerramento (para pedir, pela intercessão de São José, a graça da capacidade de sonhar os sonhos de Deus, como ele, ou ir à missa na festa de São José, em 19 de março ou 1º de maio). Quanto à inspiração, ela veio da religiosidade popular do lugar que me educou na fé. Por isso, antes de publicar as duas novenas, dos sonhos de José e da esperança de Maria, foi interessante “testar” o material, fazendo rezar o povo de minha cidade natal, Vazantes, distrito de Aracoiaba, lugar onde o povo gosta de rezar novenas, um povo que abre as portas da igreja todas as noites, a quem agradeço a inspiração e a aprovação. Também agradeço ao cardeal Dom José Tolentino Mendonça, que fez o prefácio de ambas, revelando o sentido dos sonhos e a poética da esperança cristã. Enfim, agradeço à Paulinas Editora, que multiplicou a prática de uma pequena comunidade popular do interior cearense (São José é padroeiro do Ceará!) para o Brasil inteiro: vamos sonhar juntos e transformar nossas preocupações em sonhos, e nossos sonhos em projetos de vida e em realidade, conforme o sonho de Deus com um Reino de paz, justiça e amor.
A “Novena dos sete sonhos de São José” está disponível nas Paulinas Livrarias, pelo site paulinas.com.br, pelo 0800 70 100 81 ou pelo WhatsApp (11) 97204-2814.
Sobre o autor
Pe. Pedro Rubens Ferreira de Oliveira, SJ, é doutor em Teologia pelo Centre Sèvres, Facultés Jésuites de Paris, fez sua graduação em Filosofia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE, Belo Horizonte, 1985-1987) e revalidou-a na Universidade Católica de Pernambuco (1989). Possui graduação em Teologia na FAJE (1993) e mestrado (1996) e doutorado em Teologia (2001), ambos nas Facultés Jésuites de Paris, Centre Sèvres. De 2002 a 2005, foi professor de Teologia Fundamental na FAJE, participando igualmente do programa de pós-graduação, mestrado e doutorado. Desde 2006, é reitor da Universidade Católica de Pernambuco. Foi eleito presidente da Federação Internacional de Universidades Católicas (FIUC, 2012-) e, em 2013, foi presidente da Associação Brasileira de Universidades Comunitárias (ABRUC, 2013-2017). É professor de teologia, atuando na Unicap no mestrado em Ciências da Religião (2006-2014) e, a partir de 2014, no mestrado em Teologia. Tem formação e experiência na área de Teologia, com ênfase em Teologia Fundamental, atuando principalmente nos seguintes temas: discernimento teológico, fé cristã e religiosidade popular, teologia contextual, método teológico, hermenêutica filosófica e teológica.

