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A saúde mental deixou de ser apenas uma pauta de bem-estar e passou a integrar, de forma obrigatória, a gestão de riscos nas empresas brasileiras. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que organizações identifiquem, avaliem e adotem medidas para reduzir os chamados riscos psicossociais (fatores como estresse, pressão excessiva, assédio moral e conflitos interpessoais).
Na prática, isso significa que o cuidado com o ambiente emocional de trabalho agora exige método, registro e responsabilização. “Há mais ou menos três anos, não se falava tanto sobre saúde mental nas empresas como algo relevante. O que levou a essa preocupação foi o adoecimento em massa dos colaboradores”, afirma a especialista em NR-1, Angélica Cunha.

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Dados do Ministério da Previdência Social sobre afastamentos do trabalho mostram que, em 2024, foram quase meio milhão de afastamentos, o maior número em pelo menos dez anos.
Esse cenário pressiona não apenas as empresas, mas também o sistema público. “Os afastamentos crescentes impactam diretamente a previdência social, o custo do INSS e toda a sociedade. Por isso, a prevenção se tornou necessária”, explica.
O que muda na prática
A NR-1, que existe desde 1978, sempre tratou de riscos físicos, químicos e ergonômicos, a novidade é a inclusão explícita dos fatores psicossociais. “Esses riscos sempre existiram, mas não eram mencionados de forma clara. Isso abria espaço para negligência”, diz Angélica.

A especialista em NR-1, Angélica Cunha: "Ninguém mais aguenta um ambiente profissional hostil. Isso não é modismo, as pessoas estão adoecendo". Foto: Arquivo pessoal
Agora, as empresas precisam incorporar esses riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), com diagnóstico, plano de ação e monitoramento contínuo. Caso não cumpram as exigências, podem ser fiscalizadas e multadas (a partir do dia 25 de maio de 2026, data em que a lei entra em vigor).
Mais do que uma obrigação burocrática, a mudança exige revisão interna. “A NR-1 organiza como a empresa toma decisões sobre riscos e estabelece responsabilidades claras. É uma lógica preventiva que deve permear todas as ações”, afirma a especialista.
Cultura organizacional em foco
A norma também provoca uma transformação mais profunda: o olhar sobre a cultura da empresa. “É uma mudança estrutural. Ninguém mais aguenta um ambiente profissional hostil. Isso não é modismo, as pessoas estão adoecendo”, diz.

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Segundo Angélica, a exigência legal força lideranças a revisarem práticas, valores e estilos de gestão. “Uma cultura saudável oferece transparência, propósito e respeito. Quando isso está bem estruturado, funciona como um antídoto natural contra riscos”.
Ela destaca que o foco da NR-1 não é o indivíduo isolado, mas o ambiente como um todo. “A empresa não pode piorar um problema que o trabalhador já traz. Ela precisa garantir condições equilibradas”.
Como implementar
A aplicação da norma exige organização. Entre as etapas recomendadas estão a formação de um grupo multidisciplinar, diagnóstico do ambiente, escuta dos colaboradores e definição de ações com responsáveis e prazos. “Um ponto crítico é fazer sem método ou sem ouvir o trabalhador. Não existe saúde e segurança no trabalho sem essa escuta”, alerta.

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Para além da conformidade legal, investir em saúde mental pode trazer retorno direto ao negócio. “Colaboradores que se sentem valorizados e respeitados produzem mais. Já vi pessoas recusarem salários maiores para permanecer em ambientes saudáveis”, relata.
No fim, a nova NR-1 sinaliza uma mudança de paradigma: cuidar da saúde mental no trabalho deixou de ser diferencial e passou a ser regra, com impacto que ultrapassa os muros das empresas e alcança toda a sociedade.
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