
Foto: Pexels
Das 270 citações bíblicas, 100 delas encontram-se no primeiro capítulo da Amoris Laetitia. Ele inicia afirmando que a Bíblia está cheia de famílias, com histórias de amor e de crise, desde as primeiras páginas, com Adão e Eva no Gênesis, até as últimas, com as bodas do Cordeiro e sua Esposa no Apocalipse.
Também faz referência às duas casas que Jesus fala no final do Sermão da Montanha (Mt 7,24-27), uma construída sobre a rocha e outra sobre a areia. O Salmo 128 é citado integralmente, e Mateus 19,4 é citado para falar do desígnio do princípio que Cristo evoca ao falar do matrimônio.
Para Francisco, o livro do Gênesis em seus dois primeiros capítulos oferece “a representação do casal humano em sua realidade fundamental” (AL 10). Em Gn 2 é destacado a inquietação do homem na busca de uma auxiliar, que Deus faz surgir de um de seus lados; e destaca também a geração e família como resultado desse encontro que cura a solidão: “ele se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne” (Gn 2,24).
O fruto da união é se tornarem uma só carne, união física e afetiva, genética e espiritual. Citando o Salmo 128, chama os filhos de “brotos de oliveira”, imagem de uma cultura antiga, mas que mostra os filhos como “sinal de plenitude da família na continuidade da mesma história da salvação” (AL 14).

Foto: Pexels
Francisco apresenta a Igreja doméstica citando textos das cartas paulinas no número 15. Também lembra que já no Antigo Testamento a Bíblia considera a família local de catequese para os filhos e de celebração da ceia pascal, conforme Ex 12,26-27 e o Salmo 78,3-6. E lembra também o dever dos filhos na antiga aliança de honrar pai e mãe, primeiro dos mandamentos na segunda tábua do Decálogo. O Papa observa que no Salmo 128 não nega a realidade do mal, mostrando sua consequência de sofrimento e sangue no Antigo Testamento no número 20 da Exortação.
Nesse sentido, afirma que o próprio Jesus viveu dificuldade e tensões da vida familiar e situou o divórcio como consequência do mal. E é significativo que a palavra de Jesus sobre o matrimônio (Mt 19,3-9) apareça inserida numa disputa sobre o divórcio. Mais ainda, “desde os primórdios, com o pecado, a relação de amor e pureza entre o homem e a mulher se transformou em domínio”. 1 Ainda do Salmo 128, Francisco retoma o tema do trabalho, como atividade fundamental do ser humano.

Foto: Pexels
Viver e desfrutar do próprio trabalho traz felicidade e bem-estar ao lado da esposa e filhos (cf. Ecl 2,10.24; 3,13; 5,18; 9,9), porque dignifica o ser humano e mostra as suas habilidades capazes de transformar a terra, e o que ela contém em seus utensílios úteis. O trabalho visa conseguir, com honestidade, o sustento para a família. Além disso, pelo trabalho, o ser humano demonstra que é faber e sapiens. 2
Reflexão em grupo
- “O próprio Jesus viveu dificuldade e tensões da vida familiar” afirma o texto acima. Quais dificuldades e tensões Jesus viveu?
- “O divórcio é consequência do mal”, diz o texto. Quais males resultam no divórcio?
Oração à Sagrada Família
Jesus, Maria e José,
em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor,
confiantes, a Vós nos consagramos.
Sagrada Família de Nazaré,
tornai também as nossas famílias lugares de comunhão
e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais haja nas famílias episódios de violência,
de fechamento e divisão;
e quem tiver sido ferido ou escandalizado
seja rapidamente consolado e curado.
Sagrada Família de Nazaré,
fazei que todos nos tornemos conscientes
do caráter sagrado e inviolável da família,
da sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José,
ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém.
Padre Jonas Emerim Velho é pós-doutorando em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Referências Bibliográficas
1PEREIRA, Ney B. A Amoris Laetitia e sua fundamentação bíblica, p. 16.
2 FERNANDES, Leonardo A. O Salmo 128 e a alegria do amor, p. 21.
