
Foto: Freepik
O Papa Francisco, ao iniciar o capítulo terceiro, onde aborda diretamente a teologia matrimonial, lembra que ela deve recuperar o caráter de “anúncio e ternura” (AL 59), e que “toda a formação cristã é, primeiramente, aprofundamento do querigma” (AL 58). É o primeiro anúncio, o querigma, que deve ressoar sempre de novo, também no que tange à doutrina sobre a família e o matrimônio. “O anúncio do Evangelho ou Querigma concentra o núcleo da fé: o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo (1Cor 15, 3-4; At 2, 22-28; At 13, 26-41). Toda ação evangelizadora deriva desta realidade salvífica, bem como tende para a mesma verdade”. 14 O primeiro anúncio proclama que Jesus, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado, oferece a sua própria vida ao ser humano.
Assim também na teologia do matrimônio, Francisco propõe o retorno ao conteúdo e linguagem do querigma, para que a doutrina sobre a família seja apresentada e compreendida como “Evangelho da família”, boa-nova do amor, pois “todo edifício da doutrina, formulado e transmitido, assenta-se sobre essa fonte e a partir dele pode e deve renovar-se”.15Acentua o Papa que “o nosso ensinamento sobre o matrimônio e a família não pode deixar de se inspirar e transfigurar à luz deste anúncio de amor e ternura, se não quiser tornar-se mera defesa de uma doutrina fria e sem vida” (AL 59).
Percebe-se assim que a teologia da Exortação é de retorno ao essencial, de repensar a substância da doutrina do matrimônio a partir do “coração do Evangelho”, ou do “Evangelho da família”, superando formulações teológicas abstratas e duras que não transmitam e não façam encontrar a boa-nova do amor de Deus e seu chamado para o ser humano viver no amor. Para isso, foi necessária uma nova maneira de formular a doutrina.

Foto: Freepik
Francisco entende a doutrina e a tradição da Igreja como um sistema aberto que pretende colocar as verdades de fé a serviço da vida. [...] dizer que a doutrina é um sistema aberto não é romper com a verdade que ela possui e visa comunicar, mas sim entender que essa verdade deve ser situada no tempo e no espaço como um modo de compreender e expressar certos conteúdos da fé.
Seguindo essa perspectiva, compreende-se que a teologia do matrimônio de Amoris Laetitia não muda a doutrina, muda sua formulação, sua linguagem e sua interpretação, mas não seu conteúdo substancial. O que há é um esforço de rever o que é periférico para afirmar o núcleo central.

Foto: Freepik
Amoris Laetitia recupera a substância da doutrina matrimonial. O amor permanece como regra máxima para todos os cristãos, para os unidos no matrimônio, e a partir dele se deve enxergar os mais distantes do ideal evangélico. Esse núcleo mais fundamental permanece intacto no todo e nas partes da exortação. “A AL refontaliza a doutrina do matrimônio e, nesse sentido, é mais radical que a doutrina tradicional, que era composta de elementos helênicos e formulada em termos um tanto jurídicos”. 17
O retorno ao Evangelho da família é um ato de afirmação do valor da Tradição que transmite o depósito da fé, que vai sendo formulado ao longo da história. Tradição sem renovação é traição às suas próprias origens. O Papa dá continuidade à Tradição da Igreja reformulando a teologia matrimonial, “partindo de uma teologia que busca redescobrir o frescor e o dinamismo da doutrina, mostrando como essa deve tornar-se Evangelho a ser comunicado”. 18
Reflexão em grupo
1. O que significa “anúncio e ternura” na Amoris Laetitia?
2. O que se entende por “boa-nova do amor de Deus e seu chamado para o ser humano viver no amor”
Oração à Sagrada Família
Jesus, Maria e José,
em Vós contemplamos o esplendor do verdadeiro amor,
confiantes, a Vós nos consagramos.
Sagrada Família de Nazaré,
tornai também as nossas famílias lugares de comunhão
e cenáculos de oração,
autênticas escolas do Evangelho
e pequenas igrejas domésticas.
Sagrada Família de Nazaré,
que nunca mais haja nas famílias episódios de violência,
de fechamento e divisão;
e quem tiver sido ferido ou escandalizado
seja rapidamente consolado e curado.
Sagrada Família de Nazaré,
fazei que todos nos tornemos conscientes
do caráter sagrado e inviolável da família,
da sua beleza no projeto de Deus.
Jesus, Maria e José,
ouvi-nos e acolhei a nossa súplica. Amém.
Padre Jonas Emerim Velho, pós-doutorando em Teologia Sistemática pela PUCRS.
Referências bibliográficas
FERNANDES, Leonardo A. O salmo 128 e alegria do amor. Amoris Laetitia em
questão: aspectos bíblicos, teológicos e pastorais. In: Leonardo Agostini
Fernandes (org.). São Paulo: Paulinas, 2018.
FONTANA, Leandro Luis B. Edificar o matrimônio no amor. Amoris Laetitia em
questão: aspectos bíblicos, teológicos e pastorais. In: Leonardo Agostini
Fernandes (org.). São Paulo: Paulinas, 2018.
KASPER, Walter. A mensagem de Amoris Laetitia: um debate amigável. Trad.
Alfred J. Keller. São Paulo: Loyola, 2019.
MACHADO, Ariél Philippi; BERTOLDI, Marlene. A família: lugar prioritário da
transmissão da fé. Encontros Teológicos. Revista da Faculdade Católica de
Santa Catarina, Florianópolis. v. 2, n. 71, mai./ago. 2015.
MORI, Geraldo Luiz D. Teologia e pastoral na Amoris Laetitia. Amoris Laetitia
em questão: aspectos bíblicos, teológicos ‘e pastorais. In: Leonardo Agostini
Fernandes (org.). São Paulo: Paulinas, 2018.
PASSOS, João Décio. As fontes da Amoris Laetitia. São Paulo: Paulus, 2018.
14 MACHADO, Ariél Philippi; BERTOLDI, Marlene. A família: lugar prioritário da transmissão da
fé, p. 109.
15 PASSOS, João Décio. As fontes da Amoris Laetitia, p. 29.
16 PASSOS, João Décio. As fontes da Amoris Laetitia, p. 41.
17 PASSOS, João Décio. As fontes da Amoris Laetitia, p. 50.
18 MORI, Geraldo Luiz D. Teologia e pastoral na Amoris Laetitia, p. 122.
PEREIRA, Ney B. A Amoris Laetitia e sua fundamentação bíblica. Encontros
Teológicos, Revista da Faculdade Católica de Santa Catarina, Florianópolis. v.
31, n. 1, Jan./Abr. 2016.
SISTACH, Lluís M. Como aplicar a Amoris Laetitia. Trad. Hugo C. da S.
Cavalcante. São Paulo: Fons Sapientiae, 2017.
