
Foto: Arquivo Paulinas
Nas expressões de cunho popular, muitas vezes ouvimos uma sentença sobre o nosso modo de proceder, como o ditado “é dando que se recebe”. O sentido dessa expressão traz consigo uma síntese de diversos ensinamentos cristãos e éticos sobre a generosidade e capacidade de doar-se aos outros.
Encontramos em Atos dos Apóstolos 20, 35, uma sentença mais completa, proferida pelo apóstolo Paulo quando se dirigiu aos anciãos de Éfeso: “em tudo vos mostrei que é afadigando-nos assim que devemos ajudar os fracos, tendo presentes as palavras do Senhor Jesus, que disse: há mais felicidade em dar que em receber”. Essa passagem está imbuída de um altruísmo mais do que necessário para o nosso tempo. “Dar e receber” são dois movimentos sincrônicos que devem envolver nossas relações políticas, sociais, econômicas e perpassar todas as dimensões de nossa existência.
No contexto bíblico, essa expressão vai muito além de uma simples troca de favores ou gentileza, desdobra-se em bênção e satisfação que vêm de um coração e duas mãos que se doam desinteressadamente. Desse modo, há mais alegria em dar do que em receber e, por consequência, quanto mais se dá, mais se é feliz.
O apóstolo Paulo demonstra que a alegria genuína de quem dá é maior do que a alegria de quem recebe, pois reflete o próprio jeito de ser de Deus. A recompensa por ser generoso não se traduz em algo material, como um sistema comercial de troca de valores equivalentes, mas traz para quem se doa, beatitudes que enriquecem a vida cristã.
Nesse sentido, Cristo é o nosso maior referencial, é exemplo de quem deu tudo até as últimas consequências, por amor e fidelidade ao Pai. “Daí, e vos será dado” (Lc 6, 38), diz Jesus aos discípulos de ontem e de hoje. O ato de doar-se aos outros torna-se um ato de adoração que esboça uma confiança ilimitada “naquele que tudo pode” (Fl 4,13).
Com São Francisco de Assis, rezamos: “é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado”. Há um duplo movimento de integração na repetição desta prece. Que esse refrão faça ecoar em nossos ouvidos, o forte e suave apelo do Mestre, para sempre amar e servir uns aos outros.
Florice Alves Ferreira é religiosa da Congregação das Irmãs de São José de São Jacinto, SJSH. Licenciada em Filosofia e Bacharel em Teologia pelo Instituto de Estudos Superiores do Maranhão. Tem especialização em Formação para a Vida Religiosa pela Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (RS) e é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Teologia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
