
O ditado “faca de dois gumes”, encontrado no livro dos Provérbios (Pr 5,4), pode ter várias compreensões. Há pessoas que interpretam essa expressão como as escolhas feitas por nós, em nossa liberdade.
Ora, nossas escolhas podem acarretar consequências positivas e negativas para nós mesmos e, dependendo da gravidade, para a sociedade. A liberdade pode levar o ser humano a gerar vida ou morte, a fazer o bem ou o mal, a amar ou odiar, a promover a paz ou a guerra, a construir pontes ou erguer muros – só “depende de nós” (Ivan Lins).
Em outra perspectiva, o ditado “faca de dois gumes” pode ser interpretado como referência às boas ou más palavras que pronunciamos no dia a dia. Quantas vezes não nos deparamos com situações em que, sem querer, acabamos ferindo aqueles que nos rodeiam com nossas más palavras?
Nesse sentido, o evangelista Lucas diz: “O homem bom, do tesouro bom de seu coração, tira o bem; enquanto o malvado, do tesouro mau, tira o mal, pois sua boca fala o que transborda do coração” (Lc 6,45).
Com efeito, a Bíblia nos ensina a fazer bom uso das palavras: “Não saia de vossa boca nenhuma palavra desprezível, mas só se for boa e que possa edificar, quando necessário, e transmitir amabilidade aos que ouvem” (Ef 4,5); pois “Palavra não foi feita para dividir ninguém. Palavra é a ponte onde o amor vai e vem” (Irene Gomes).
Por fim, a metáfora da “faca de dois gumes” (Pr 5,4) é interpretada pela Carta aos Hebreus como a Palavra de Deus, que é viva e eficaz, a fim de transpassar o nosso ser (Hb 4,12). Por isso, toda pessoa que se deixa transpassar pela Palavra de Deus não será a mesma, mas em Cristo se tornará uma nova criatura (2Cor 5,17).
Irmã Macionila Campos de Oliveira é membro da Congregação das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, graduada em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco. Atualmente, é mestranda em Teologia na mesma universidade.
