
Na passagem "Fazer o bem, sem olhar a quem", que ecoa em Gálatas 6,9: “Não nos cansemos de fazer o bem”, Paulo descreve a uma comunidade ferida por conflitos, formada por pessoas de origens diferentes, marcada pela realidade do mercado escravo e pela imposição de práticas judaizantes. E o convite dele, diante de tanta diversidade e tensão, é simples e direto: fazer o bem.
O verbo “fazer” é essencial. Está relacionado a construir, realizar algo concreto, neste caso, realizar o bem. E “bem” está profundamente ligado à palavra bênção – que vem do latim bene dicere e significa “dizer o bem”.
Assim como os patriarcas (Gn 22,17-18; 27,27b-29; Nm 6,24-26) abençoavam seus descendentes com palavras e gestos, o convite de Gálatas é abençoar com atitudes. Mesmo com limites e dificuldades, somos chamados a ser canal da bênção de Deus no mundo.
Mas o provérbio continua: "sem olhar a quem" Na linguagem bíblica, o “olhar” simboliza o julgamento, o discernimento. O olho é o órgão que avalia, que distingue. Só que aqui, o convite é outro: fazer o bem sem julgar, sem selecionar, sem parar para medir quem merece.
Não se trata de agir por impulso, mas com liberdade e confiança na graça. Fazer o bem sem esperar retribuição ou reconhecimento — senão vira troca. É aqui se trata de uma espiritualidade ativa, encarnada, que vai além de gestos pontuais de caridade e se torna um estilo de vida.
Fazer o bem sem olhar a quem é justiça, que nasce do coração de Deus e se realiza no cotidiano do povo.
Irmã Beatriz Ayres Nogueira, IMC é mestra em Teologia, especialista em Assessoria Bíblica e em Docência do Ensino Superior. Bacharel em Teologia (Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção-SP).
