
A ação de lavar as mãos acompanha a humanidade de diversas maneiras desde o início de sua existência terrena. Embora tenha origem na vida cotidiana das pessoas, seu significado vai muito além. Dependendo do contexto religioso e cultural, tornou-se uma prática relacionada ao ritual de purificação.
Na cultura judaica, além de ser interpretada como uma ação de purificação pessoal e higiênica, lavar as mãos representava também a ausência de responsabilidade diante de derramamento de sangue inocente (Dt 21,6-9; Sl 26,6; 73,13).
Os pagãos também adotaram esse gesto simbólico como forma de renunciar à responsabilidade do sangue de vítimas inocentes ou de outros compromissos sociais. Um exemplo histórico bíblico disso é o caso do governador Pôncio Pilatos. Sobre isso, o evangelista Mateus escreve o seguinte: “Pilatos, vendo que nada conseguia e que, ao contrário, o tumulto aumentava, pediu água e lavou as mãos diante da multidão, dizendo: Sou inocente deste sangue. Vós respondereis por isso” (Mt 27,24).
Por qual motivo Pilatos lavaria suas mãos? Se estavam limpas, não haveria necessidade de lavá-las. No entanto, essa atitude é simbólica. O povo conhecia esse simbolismo, por isso não se admirou com a atitude covarde do governador romano. Pilatos havia lavado as mãos diante do sangue de um Justo. Com isso, não declarou a inocência de Jesus Cristo, mas transferiu a responsabilidade da execução de Jesus para os que estavam presentes: “Vós respondereis por isso” (Mt 27,24).
Mundialmente, a atitude de Pilatos é repetida na atualidade, quando nos calamos diante das injustiças, das ameaças à vida, das inúmeras opressões e das diversas formas de violência. A ação de Pilatos se manifesta também diante das vidas ceifadas pela fome, da precariedade na saúde e na educação das periferias das cidades, e da indiferença frente às doenças, como ocorreu na pandemia da Covid-19. Essa atitude se repete ainda quando há pais que abandonam a responsabilidade de cuidar de seus filhos, ou quando os filhos abandonam seus pais. E até mesmo quando profissionais da saúde, da educação ou de outras áreas deixam de cumprir, com zelo e humanidade, o compromisso de servir ao próximo.
Colocar em prática a ação realizada por Pilatos, lavar as mãos diante dos acontecimentos do mundo atual e dar a sentença de condenação ou libertação, só depende de nós. Pense nisso!
Irmã Macionila Campos de Oliveira é membro da Congregação das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, graduada em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco. Atualmente, é mestranda em Teologia na mesma universidade.
