
Dependendo do contexto em que usamos, a expressão “umbigo do mundo” é uma metáfora utilizada para se referir a alguém que se autodefine como o “centro de mundo”, como se o universo inteiro girasse em torno de si. A expressão pode ser compreendida no sentido geográfico, cultural ou crítico.
No sentido cultural, a expressão foi usada na descrição de lugares sagrados para uma determinada civilização, por exemplo, Delfos, na Grécia Antiga, era conhecido como o “umbigo do mundo” (omphalos) pelo fato de ser, segundo a mitologia grega, o ponto central da terra.
Numa linguagem relacional, a expressão toma um tom de ironia ou crítica comportamental, pois se refere a alguém egocêntrico ou ego-narcisista. “Fulano, age como se fosse o umbigo do mundo”, isto é, como se tudo e todos estivessem girando ao redor de seus interesses e desejos.
A crítica pode ser endereçada a indivíduos, países, empresas ou culturas que se outorgam mais importantes do que são na realidade, ignorando e subestimando a existência dos outros.
Considerando o contexto bíblico, essa expressão é encontrada em Juízes 9, 37: “Eis que descem homens do lado do Umbigo da terra”. A expressão do texto pode se referir à montanha sagrada do Garizim e pode ser aplicada a Jerusalém. Pois, na tradição judaico-cristã, Jerusalém é considerada como o centro da terra. Isso reforça a ideia de um “centro espiritual” do mundo. O profeta Ezequiel aplica essa definição à cidade de Jerusalém como o lugar onde está preso o cordão umbilical que une a terra com o céu no mundo semita.
“Atacarei um povo recolhido dentre as nações, que se dedica ao rebanho e às propriedades e habita no umbigo do mundo” (Ez 38, 12). O templo de Jerusalém, no monte Sião, era concebido como o lugar da habitação de Deus entre os homens. O ponto de convergência entre o divino e o humano. Dessa forma, ecoa o significado do centro sagrado presente na expressão “umbigo do mundo”.
“Umbigo da terra” é esse lugar onde a terra se une ao céu num encontro único, quase espiritual, onde o centro religioso do globo pode ser, no simbolismo bíblico: Babilônia, Roma e os impérios do mundo antigo. No contexto contemporâneo, há nações e chefes de Estados que se definem como o “umbigo do mundo”.
Quando se usa essa expressão para criticar o egocentrismo, ou seja, alguém que se considera o centro do universo, há referências bíblicas que advertem para o perigo do orgulho e da autossuficiência.
Florice Alves Ferreira é religiosa da Congregação das Irmãs de São José de São Jacinto, SJSH. Licenciada em Filosofia e Bacharel em Teologia pelo Instituto de Estudos Superiores do Maranhão. Tem especialização em Formação para a Vida Religiosa pela Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (RS) e é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Teologia da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).
