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A Constituição Pastoral Gaudium et Spes (CONCÍLIO VATICANO II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes (GS), sobre a Igreja no mundo atual, 7 dez. 1965, n. 1; 24; 47–52) é o texto conciliar de maior incidência direta sobre a Pastoral Familiar. Logo no seu início, o Concílio define seu método: ler os “sinais dos tempos” à luz do Evangelho, assumindo as “alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos homens de hoje” como próprias da Igreja (GS 1).
As famílias não são um problema, são sobretudo uma oportunidade (AL 7).
A primeira parte de Gaudium et Spes propõe uma antropologia teológica que fundamenta a compreensão cristã do matrimônio e da família. O ser humano é criado à imagem de Deus, chamado à comunhão, incapaz de se encontrar plenamente “senão pelo dom sincero de si mesmo” (GS 24). Essa célebre formulação tem enorme impacto para a teologia do matrimônio: o amor conjugal é, por essência, uma forma específica de “dom sincero de si”, na qual os esposos se entregam mutuamente, constituindo uma comunhão de vida e amor.
Bento XVI, retomando a visão personalista do Concílio, descreve a família, fundada no matrimônio indissolúvel, como lugar privilegiado da dimensão “relacional, filial e comunitária” do ser humano, sublinhando que promover a família é promover o próprio bem comum.
A segunda parte de Gaudium et Spes, ao tratar de alguns problemas mais urgentes, dedica os números 47-52 à promoção da dignidade do matrimônio e da família. O Concílio define o matrimônio como “íntima comunidade de vida e amor conjugal”, fundada pelo Criador e estruturada por uma aliança de entrega recíproca (GS 48). A família é vista como “escola de mais rica humanidade” (GS 52), onde os filhos são acolhidos, educados e iniciados na fé.
Como recorda o Papa Leão XIV, no Jubileu das Famílias, a família é lugar originário do futuro dos povos e da transmissão da fé, e o matrimônio, longe de ser um ideal abstrato, é a forma concreta do verdadeiro amor entre homem e mulher. O Papa sublinha que o mundo de hoje “precisa da aliança conjugal” para conhecer e acolher o amor de Deus e superar as forças que desagregam as relações e a sociedade.
Afirma também que, na família, a fé é transmitida de geração em geração juntamente com a vida, fazendo da casa um lugar privilegiado de encontro com Cristo.
O casamento não é um ideal, mas a regra do verdadeiro amor entre o homem e a mulher. (Homilia, Jubileu das Famílias, 01.06.2025.)
Do ponto de vista pastoral, chama atenção a integração entre a dimensão unitiva e procriativa do matrimônio. Contra reducionismos biologistas ou meramente afetivistas, Gaudium et Spes afirma que o amor conjugal é, ao mesmo tempo, abertura à vida e comunhão de pessoas. A paternidade responsável, exercida em diálogo, discernimento e respeito à lei moral, é apresentada como dever dos esposos diante de Deus, dos filhos já nascidos, da família e da sociedade (GS 50).
A Pastoral Familiar encontra aqui um fundamento importante para a educação em vista da responsabilidade procriativa e da acolhida da vida, em equilíbrio entre generosidade e prudência.
Pe. Rodolfo Chagas Pinho, presbítero da Diocese de Jacarezinho-PR, mestrando em Teologia Sistemática PUCRio, especialista em Pastoral pela FAJE, especialista em Trabalho com Família e Sociabilidade pela Uninter, bacharel em Comunicação pela FANORPI, graduado em Filosofia e Teologia pelo Seminário Maior de Jacarezinho (PR). Atualmente é assessor da Comissão Episcopal Vida e Família da CNBB e Secretário - Executivo Nacional da Pastoral Familiar.
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