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Mais do que episódios isolados de agressão, a violência no futebol revela questões sociais, culturais e emocionais profundas. Nesta entrevista, o professor de Educação Física e pesquisador Narayana Astra van Amstel analisa o que está por trás da agressividade nas torcidas, o impacto da lógica do “nós contra eles” e o papel da família, da mídia e das instituições esportivas na formação de torcedores mais conscientes. Para ele, o esporte pode tanto alimentar hostilidades quanto se tornar uma poderosa ferramenta de educação para a paz e a fraternidade.
- A violência no futebol pode ser explicada apenas pelo comportamento das torcidas?
Não. Durante muito tempo, a explicação mais comum foi a ideia da “psicologia das multidões”, como se o indivíduo perdesse a racionalidade dentro do grupo. Isso ajuda a entender parte do fenômeno, mas é insuficiente. A violência envolve fatores sociais, culturais, emocionais e até políticos.

O pesquisador Narayana Astra van Amstel: "O esporte pode canalizar conflitos humanos de forma civilizada, mas isso depende dos valores que desejamos inserir dentro dele". Foto: Arquivo pessoal
- Por que o futebol desperta emoções tão intensas?
O futebol reúne elementos muito particulares: identidade coletiva, rivalidades históricas, ligação com território, família, memória afetiva e multidões vivendo emoções ao mesmo tempo. O clube passa a representar bairro, cidade e pertencimento.
- O que acontece com o indivíduo dentro de uma torcida?
Ele deixa de agir apenas como “eu” e passa a se perceber como parte de um “nós”. A vitória é sentida quase como um triunfo pessoal, enquanto provocações podem ser vistas como ataques à própria identidade.

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- A lógica do “nós contra eles” é inevitável no esporte?
Em alguma medida, sim. Todo esporte competitivo pressupõe oposição entre grupos. O problema surge quando o rival deixa de ser adversário esportivo e passa a ser tratado como inimigo.
- Existe diferença entre paixão pelo time e idolatria?
Sim. A paixão é saudável quando permanece dentro de limites éticos. O problema começa quando alguém acredita que humilhar ou agredir o outro se justifica em nome do clube. A paixão esportiva perde seus limites éticos e torna-se doentia.

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- Clubes e mídia têm responsabilidade nisso?
Têm muita responsabilidade. Clubes, dirigentes, mídia esportiva e influenciadores ajudam a moldar a maneira como o torcedor vive a rivalidade. Muitas vezes, discursos inflamados e linguagem de guerra geram audiência e engajamento. O esporte possui um imenso potencial comunicativo e uma linguagem simbólica de fácil compreensão popular. Justamente por isso, essa força pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Quando são estimulados o respeito, o fair play e a rivalidade saudável, ajudam a fortalecer uma cultura da paz no esporte.
- O esporte pode ser uma ferramenta real de educação para a paz e a fraternidade? O que precisa mudar para que isso aconteça na prática?
Pode, e possui enorme potencial para isso. O esporte ensina convivência, disciplina, cooperação, respeito às regras e capacidade de lidar com vitórias e derrotas. Além disso, poucas práticas sociais conseguem reunir pessoas tão diferentes em torno de experiências coletivas. Mas, para que isso aconteça na prática, é preciso envolver educação desde a base, responsabilidade maior de clubes, mídia e influenciadores, bem como uma mudança cultural na maneira como a rivalidade é vivida. O esporte pode canalizar conflitos humanos de forma civilizada, mas isso depende dos valores que desejamos inserir dentro dele.

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- É possível ensinar alguém a torcer? Qual o papel da família nisso?
Sim. Existem pessoas que torcem a favor do próprio time e pessoas que torcem contra o rival. Esses modos de torcer são aprendidos desde cedo, principalmente dentro de casa. O papel da família é fundamental. É na família que a criança aprende como lidar com rivalidade, frustração e respeito ao outro. O modo como os adultos falam sobre árbitros, adversários e outras torcidas influencia profundamente as futuras gerações.
Entenda a origem da violência no futebol, confira: Por que o futebol desperta tanta violência?
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